«And some people say that it's just rock 'n' roll. Oh but it gets you right down to your soul» NICK CAVE

quinta-feira, agosto 24, 2017

Respeitem-se os limites de segurança no Aeroporto da Madeira

O Boeing 727-200, que se despenhou em 1977 em Santa Cruz, não deveria ter operado na pista de Santa Catarina, mas a Boeing e a TAP arriscaram... como se quer arriscar agora baixar os limites de vento

Notícia do Diário de 11.08.2017 deu conta que diversas entidades serão ouvidas pela Autoridade Nacional de Aviação Civil sobre a eventual alteração dos actuais limites de vento no Aeroporto da Madeira. Uma das partes que a ANAC auscultará são os fabricantes dos aviões.

Ora, recordemos o que se passou com a Boeing no trágico acidente com o 727-200 da TAP, em 19 de Novembro de 1977, na Madeira (vídeo 1: reportagem da RTP; e vídeo 2: reportagem da SIC).

«Outro dos pontos de acusação contra a Boeing era um relatório de 1970 da Associação de Pilotos de Linha Norte Americanos. O documento defendia que o Boeing 727 não deveria operar, por razões de segurança, em pistas com comprimento inferior a 2.200 metros. O Aeroporto de Santa Catarina na Madeira tinha, na altura (em 1977) apenas 1.600 metros» (aos 21m e 36s da reportagem da RTP).

O comandante Carlos Nunes, Assessor de Segurança da TAP, refere na reportagem da RTP: “quando nós pusemos o Boeing 727-200 a operar no Funchal foi com a concordância da Boeing. A Boeing considerou, feitos os estudos, que o avião tinha todas as condições para operar naquela pista, naquelas condições.”

Só após o acidente é que a TAP, contra os estudos da Boeing, resolveu deixar que esse tipo de avião operasse para a Madeira. Foi preciso a desgraça acontecer.

Sabe-se ainda que, quando há interesses/pressões em jogo, os estudos são amanhados para se atingirem os objectivos pretendidos... E aqui está o problema. Na dúvida se uma eventual baixa dos limites de vento se deverá a estudos técnicos sérios ou às pressões, é melhor deixar tudo como está.

O que as imagens documentam neste vídeo, com aterragens no Aeroporto da Madeira, é dentro dos actuais limites de vento estabelecidos... A ANA refere serem procedimentos especiais, o que se compreende tendo em conta que é um aeroporto especial.

Imagine-se se as actuais pressões políticas, e outras, para baixar os níveis de segurança, têm sucesso... e pilotos passam a arriscar mais, como arriscou o piloto em 19 de Novembro de 1977, em que, pela terceira vez, fez o avião à pista do Aeroporto de Santa Catarina sob chuva intensa. Na primeira tentativa já as pessoas vomitavam, recorda um passageiro desse voo trágico de há 40 anos.

Sentir-se-á seguro se baixarem os níveis de segurança? Já é terror suficiente aterrar dentro dos limites actuais... Aumentar os riscos de acidente num aeroporto já complicado, muito mais gente terá terror de aterrar na Madeira.

Critica-se os pilotos que decidem nem se fazer à pista perante certa intensidade de vento (opção de segurança que implica mais custos para as companhias...), e quer-se pressioná-los a fazerem-se à pista "à força". Como? Baixando os limites de vento... Mesmo que haja um acidente, o «crime compensa», economicamente, por todos os voos que conseguirem aterrar fora dos limites actuais de vento... Quem morre ou fica estropiado é um mero azar ou efeito colateral. Economia sem ética, que não se importa com segurança e saúde das pessoas e que julga poder enganar toda a gente.

A solução não é baixar, administrativamente, os níveis de segurança, um princípio sagrado. É tirar partido do aeroporto do Porto Santo. Em matéria de segurança é preferível pecar por excesso do que por falta.

(fonte da imagem)

quarta-feira, abril 05, 2017

«Be drunk, always»

 picture by Frantisek Kupka

"You must be drunk, always. That is everything: the only question. Not to feel the horrible burden of Time that crushes your shoulders and bends you earthward, you must be drunk without respite. But drunk on what? On wine, on poetry, on virtue—take your pick. But be drunk. And if it should chance, on the steps of a palace, in the green weeds of a ditch, in the dreary solitude of your bedroom, you awake, your drunkenness grown less or gone, ask of the wind, of the wave, a star, bird, clock, anything fleeing, any that moan, that roll along, that sing, that speak, ask what hour it is; and the wind, wave, star, bird, clock, will reply, “The hour to be drunk! Not to be Time’s racked slaves, be drunk; be drunk without respite. On wine, on poetry, on virtue—take your pick."

Charles Baudelaire, “Be Drunk” from “Paris Spleen”

«Eu sinto demais»


— Você racionaliza demais.
— Não, não amigo. Eu sinto demais. Para você chegar a tal ponto de racionalidade é porque você já conseguiu extirpar todo o sentimento possível às custas de doses cavalares de angústia.

Passagem do filme Borrasca de Francisco Garcia, em que dois amigos conversam sobre a vida à beira de uma garrafa de Jack Daniel's.

A arte, além do efeito estético do Belo, tem esta capacidade de desocultar a significação emocional profunda subjacente à realidade e abordar/compreender as questões inerentes à natureza e condição humanas.

origem da imagem

terça-feira, janeiro 31, 2017

Revivalismo dos formatos físicos da música

photo: nelio de sousa 2017

O revivalismo nos formatos físicos também acontece por via da cassete, além do vinil: Cassette tape album sales grew 74% in 2016. A cassete foi o formato em que comprei e ouvi a primeira música. O walkman foi a minha primeira aparelhagem. Para nem falar das muitas compilações caseiras feitas em cassete.

Na era digital, percebe-se que a presença física e o contacto com o objecto são importantes e explicam, em boa parte, tal revivalismo. E o CD continua a vender bem. Os objectos de estimação são um conforto emocional para as pessoas. E ainda mais quando contêm Arte.

À cassete, seguiu-se o meu consumo de música em vinil e depois em CD. E apenas em CD desde há dois anos, por uma questão de custo e por ser mais prático. Quando muitos se (re)viravam para o vinil, rendi-me, finalmente, ao CD, até para não "sofrer" por comparação com o som do vinil. Com um som da aparelhagem para o "quente", analógico, com bons graves, e médios/agudos suaves, o CD soa muito bem.


Apesar do download ilegal ter-se generalizado, continuo a comprar música, uma forma de retribuir aos artistas aquilo que me dão e de terem capital para gravarem novos discos.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Exploding Hendrix

«Exploding Hendrix» (1968) de Martin Sharp, que ilustra, visualmente, a música e actuação electrizantes do autor de Foxey Lady

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Nova ignorância

image: pixabay.com

«Mesmo que tenhamos, como agora se diz, as gerações mais qualificadas, estamos cegos quanto ao crescimento da nova ignorância, não só em aliança e em tandem com a antiga, mas assumindo novas formas e efeitos. O facto de haver um modismo tecnológico e se confundir a utilização de gadgets, aliás bastante rudimentar, com um novo saber, que implica novas competências, esconde essa regra básica de que as literacias para os usar vêm do sistema escolar a montante e a possibilidade de os usar para uma melhoria social só existe a jusante se acompanhar uma evolução social que não se está a verificar. Mais do que uma evolução, há uma involução. A antiga ignorância assentava numa carência, numa falta [baixa qualificação profissional e insuficiente escolaridade], a nova assenta numa ilusão.»

«É por isso que a antiga ignorância era vista como um problema da sociedade e a nova é vista como um “progresso”, ou como uma tendência contra a qual é inútil lutar. Isso tem muito que ver com uma ideologia corrente face às novas tecnologias, em particular aquelas que têm imediatos efeitos sociais como os telemóveis, as redes sociais, e certos modos de usar os videojogos, a realidade virtual e mesmo o computador e a televisão.»

— José Pacheco Pereira, Público (31.12.2016)

quarta-feira, dezembro 07, 2016

«História em pedacinhos»: memórias de vida vivida

photo nelio sousa (2016)

As memórias de infância, adolescência e entrada na vida adulta de Maria Cecília deram um livro: História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar (Chiado Editora, 2016). O seu percurso assegura um bom enredo à história de vida, luta, sobrevivência e procura da felicidade, que nos é contada. Uma história que é também de descoberta do mundo. Um tempo iniciático para o narrador-personagem protagonista. E, por tudo isso, espelhando aspectos da condição humana, lhe assegura uma dada universalidade. Um relato metido na vida, orgânico, visceral.

Esta compilação de memórias, momentos e emoções, decorrente de um testemunho pessoal terno, querido e sensível, é dedicada aos seus pais e dirigida/oferecida aos irmãos, que «eram muito pequenos para se lembrarem.» O que leva à epígrafe do livro com a frase de José Saramago de A viagem do elefante: «O passado é um imenso pedregal que muitos gostariam de percorrer como se de uma auto-estrada se tratasse, enquanto outros, pacientemente, vão de pedra em pedra, e as levantam, porque precisam de saber o que há debaixo delas.» O testemunho de Maria Cecília materializado em livro representa esta segunda atitude face ao passado, bem como o resgate deste à inexorável passagem do tempo e ao esquecimento.

A História é apresentada na forma de pequenos capítulos («pedacinhos» - diminutivo revelador de afectuosidade), com um título e subtítulo bem escolhidos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar é uma frase que sintetiza o conteúdo e a ambiência. A narração dos acontecimentos, que impelem a acção, é entremeada com capítulos descritivos de pessoas, lugares e eventos. Uma estratégia eficaz de organização da narrativa encontrada pela autora. São quadros ou mosaicos que se vão sucedendo. As descrições permitem-nos aceder ao caldo sócio-cultural (contexto) e funcionam como uma pausa benigna da acção, isto é, do corpo principal do livro composto pelos retalhos da vida de uma família, parafraseando uma obra de Fernando Namora.

O leitor é induzido a compartilhar das experiências, pensamentos e sentimentos da personagem protagonista (na dedicatória, entrega o protagonismo à sua «mãe, a protagonista destas histórias» - p.5). Este narrador-personagem faz parte da história e narra-a na primeira pessoa, com a alma encostada ao que conta. Quando o narrador acumula funções de personagem, é marcado pela subjectividade em relação aos factos ocorridos, sendo assim uma narrativa parcial, por constituir-se o único ângulo de visão. O leitor é, assim, conduzido pela história pela mão (ponto de vista) da personagem.

A narrativa desenrola-se com fluidez, ritmo e expressividade. As memórias são-nos contadas com vida e cor, visceralmente, sem rodeios ou subterfúgios. Uma partilha parcial, mas que é autêntica. Esta narrativa testemunhal, por força das muitas mudanças, imprevisibilidade e fuga ao convencional percurso sedentário, oferece uma intriga que agarra o leitor: «Bem dizia minha mãe que tinha vida de ciganos. Já mudámos outra vez de casa» (p.153).

A linguagem é simples, sóbria, directa, concisa, como convém que seja. Neste âmbito mais formal (de estilo, ao nível do pormenor), uma nota quanto ao uso do ponto de exclamação, que se poderia dispensar, excepto nos casos em que um personagem gritasse algo, no contexto de um «diálogo», ou se deparasse perante um «perigo físico eminente ou uma grande surpresa» (Mittlelmack, H. e Newman S., 2012, Como não escrever um romance, p.105, Lisboa: Pergaminho). Mesmo nestes casos, pode ser dispensado, porque este sinal de pontuação é um obstáculo gráfico, cuja verticalidade o faz converter-se num muro visual no final de cada frase. Portanto, a sua utilização só em caso de extrema necessidade enfática, em que compense o "dano" visual, uma espécie de lomba de controle de velocidade na leitura.

As palavras têm força por si mesmas, independentemente da pontuação ou «outras convenções tipográficas utilizadas para dar ênfase», como itálicos, maiúsculas, negrito, travessões para intercalar frases, também a usar «muito raramente ou nunca» (idem) - opção que se verifica, e bem, por parte de Maria Cecília quanto a essas convenções. A ideia é não distrair o leitor e garantir a fluidez da leitura. Há algumas pequenas gralhas, o que acontece mesmo nos livros de autores consagrados, que facilmente se colmatam numa segunda edição.

Refira-se ainda que as três citações da poesia de Manuel Alegre, do livro Um barco para Ítaca (1971), nas páginas 16, 76 e 86 de História em pedacinhos, a meio da narrativa, embora pertinentes na ilustração, corroboração, reforço ou validação de sentido e emoções, não acrescentam algo de significativo e podem desviar o leitor do que está a ser contado. A não serem dispensadas, as citações funcionariam melhor como epígrafe, como no último capítulo (p.135), citado da mesma obra do referido poeta, ou então metido na própria prosa, sem ficar visualmente destacado e sem hiato gráfico.

Não há diálogos. Tudo nos é dado através do discurso indirecto, pelo narrador-personagem, com um olhar atento, inteligente e sensível. O diálogo implicaria não cingir-se aos factos e às memórias e entrar na ficção, com prejuízo para a exactidão, objectividade e fiabilidade. Lá se ia o efeito de realismo e verosimilhança. Assim, o travessão, como indicador de fala, de citação de palavras de alguém, de uma frase pontual de um diálogo não expresso na totalidade neste livro, surge apenas quatro vezes: páginas 15 («— Será por dois anos, o suficiente para arranjar algum dinheiro para melhorar a nossa vida e fazer uma casinha»), 17 («— Olha ali. É aquele. O da camisa amarela.»), 31 («— vaidoso —») e 124 («— trocou a sua mãe verdadeira por uma madrasta?»).

O relato, um legado que deixa à família e aos leitores em geral, tem ainda interesse e valor social pelo facto de testemunhar e ilustrar o fenómeno da emigração, e os dramas associados, cenário e motor da narrativa - despoleta um conjunto de acções, que se encadeiam: diálogo diegético. Viagem, mudança, saudade e regresso são palavras recorrentes. Refere as «viúvas de marido vivo», mulheres que ficavam na ilha enquanto os maridos lutavam pela vida no estrangeiro, eles que, por vezes, as esqueciam e abandonavam, fazendo jus ao ditado longe da vista, longe do coração. Sublinha ainda o sentir-se «sempre estrangeiro» («humilhou-o pelo facto de ser emigrante» - p.70) e o «coração partido ao meio» (p.71) de quem emigra.

Apesar de a pobreza ser o drama que conduz milhares para a emigração («à procura da vida que a sua própria terra lhe negava» - p.15), nem tudo são espinhos na terra-mãe. Há aspectos idílicos, felizes e saudosas tradições. A emigração tem também aspectos positivos, ao proporcionar oportunidades de evolução e abertura civilizacional, pelo contacto com uma nova cultura e valores. Estes geralmente desafiavam os valores que os ilhéus levavam de uma terra marcada pela miséria material, cultura cristã (católica) conservadora e atraso de mentalidades - era um tempo marcado por um elevado analfabetismo. Tudo é retratado por Maria Cecília, a partir das suas memórias ou do que lhe foi directamente relatado por outros.

Nota-se, porém, um conflito entre a saudade de aspectos desse tempo mais primitivo, mais autêntico, simples e feliz e a recusa, e até repulsa, de aspectos opressivos desse passado (século XIX e primeira metade do século XX). A evolução e a modernidade trazem abertura e melhoria na qualidade de vida mas aceleram e sacrificam também algumas vertentes favoráveis desse modo de vida mais essencial, com um ritmo de vida mais lento e amigo da pessoa humana, mais ligado à natureza e à cultura genuína e local.

A narrativa inicia-se com dois breves textos, sem título, que constituem um prólogo, na terceira pessoa (a restante narrativa faz-se na primeira pessoa), sobre o momento presente (passado recente) em que se fala de alguém prestes a cumprir sessenta anos. Os dados biográficos sobre a autora, no interior da capa do livro, permite que os cruzemos com a narrativa. Sabemos que concluiu o ensino secundário aos cinquenta e nove anos. Fala dessa importante experiência neste texto inicial, bem como da ambição de fazer um curso universitário, em virtude do seu permanente desejo de conhecer.

Viajou para a Venezuela aos seis anos de idade, em 1955, deixando para trás o Jardim do Mar, uma ilha dentro de outra ilha, a Madeira. Em 1973, nas vésperas da Revolução em Portugal, regressou às origens. Naquele país, note-se, já tinha vivido o golpe de Estado de 1958, que pôs fim à ditadura do general Marcos Pérez Jiménez, mudança que viria a marcar, então, o percurso de vida da sua família.

Nessas cinco páginas iniciais, é saliente a importância de ser-se reconhecido e apreciado. Quando se não o é, o sonho e a criança interior e, sobretudo, a escrita, são contrapontos luminosos. E quando a escrita merece publicação e boa recepção, ambos sinais de reconhecimento público além da realização pessoal, como no caso de História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar, a luminosidade intensifica-se.

O narrador-personagem, após os dois referidos textos introdutórios, assume-se na primeira pessoa quando inicia o relato das suas memórias, precisamente no momento marcante da chegada à Venezuela e do encontro que permite conhecer o pai: «É aquele. O de camisa amarela» (p.17). O nome da terra de origem («pequena ilha perdida no Atlântico» - p.15) e de destino («à beira do mar das Caraíbas» - p.21) não são expressas, mas diversas referências ao longo da narrativa permite identificar, indirectamente, esses espaços. O adjectivo «venezuelana» surge na página 86. O nome «Madeira» é expresso perto do final do livro, na página 143. As referências temporais não chegam à menção dos anos. É deixado algum esforço de decifração ao leitor, que assim se centra mais no conteúdo do relato do que nas balizas espácio-temporais. Manter a narrativa limpa e fluída é a opção correcta.

Logo após o arranque da acção, com a chegada à «terra nova», surge o primeiro capítulo descritivo, expediente para dar o contexto da «aldeia onde nasceram» os pais e o próprio narrador-personagem. É a perspectiva desta personagem baseada na observação e conhecimento que tem da terra natal.

O capítulo seguinte («Mulheres da aldeia»), também descritivo, dá conta do peso da tradição e das raízes. A mãe será, no novo país, a guardiã rigorosa da manutenção desses valores, mais conotada com o medo da mudança: «nunca nos atrevêssemos a desrespeitar as leis do Senhor» (p.40). O pai («Mr. Atlas» - p.31) revela maior abertura à cultura e valores da «nova terra», nomeadamente no cuidado com a sua forma física («era amante de culturismo» - p.31) e aspecto físico («vaidoso - dizia a minha mãe»), o que era muito moderno nos anos 50.

A este respeito, note-se que, na ilha de origem, a energia e o tempo eram canalizados para o trabalho na terra, e qualquer gasto visando a estética, a boa forma física, a saúde, bem-estar ou a prática desportiva era encarado como vão e um desperdício. Chegava a ser ofensivo. É algo perfeitamente compreensível, porque a prioridade era outra: assegurar o pão para a boca. A pobreza e a dura luta pela sobrevivência não se compaginavam com actividades ociosas e improdutivas. Daí o desprezo pelo conhecimento e pela escola, que ainda hoje se faz sentir, apesar da escolaridade obrigatória. Tanto cá como, então, nos países de emigração, «raramente mandavam os filhos para a escola» (p.145).

A passagem «o meu pai fazia questão de nos mostrar a modernidade daquele país» (p.43) prova o fascínio e adesão a essa modernidade por parte da figura paterna. O capítulo «Cinema» é significativo por representar o moderno, «novo» e «emocionante», em total contraste com a aldeia remota e sem luz eléctrica. Para nem falar de outras Luzes de afirmação da liberdade individual. Não admira que o cinema tenha sido uma «descoberta maravilhosa». E, como se não bastasse de emoção, a noite de cinema terminava como um «delicioso gelado na geladaria Tomasseli» (p.44).

O capítulo «As mulheres da minha aldeia», entre outros, ilustram e caracterizam uma mentalidade e modo de vida, que tem tanto de bucólico como de muito conservador, em contradição com o novo país para onde a família emigrou. O padre da aldeia «fez a minha mãe jurar que havia de aceitar todos os filhos que Deus lhe quisesse dar» (p.39) e ela «cumpria fielmente a sua promessa: havia de receber com alegria todos os filhos que Deus lhe desse (p.59).

Quanto ao pai, «não estava nos seus planos ter uma grande família». Por essa razão, «não ficou muito entusiasmado ao saber da nova gravidez da minha mãe, [...] pois isso iria dificultar um pouco a possibilidade de construir fortuna. Ela ficou muito ressentida, creio que nunca lhe perdoou por isso» (p.58). Anos mais tarde, e apesar das questões de saúde da progenitora, a «minha mãe está esperando bebé novamente. O meu pai já não se incomodava.» «Habituámo-nos a este ritmo de nascimentos» (p.80). Consequentemente, «agora éramos oito» [filhos] (p.158). A mãe tinha quarenta e três anos quando teve as últimas duas filhas: «e por aqui ficou...» (idem).

Certos valores e costumes da ilha de origem são conotados com a «época medieval» face aos valores dos «anos sessenta, na época do amor livre, a Guerra Fria e a mini-saia» (p.144). Recorde-se que, ao longo de quase três séculos (1536-1821), sim, quase três séculos, a Inquisição foi uma das instituições mais temidas em Portugal, em que nenhuma heresia escapava ao Santo Ofício, tribunal eclesiástico, para garantir uma fé católica com elevado grau de pureza (radicalismo). Milhares de pessoas foram perseguidas, torturadas e mortas na fogueira. Marcas que ficaram entranhadas na mentalidade.

Nos países para onde emigravam, muitos conterrâneos viviam uma «vida de trabalho e privações, sem nenhum tipo de beleza ou distracção» e, insistimos, «raramente mandavam os filhos para a escola» (p.145). Por isso, a «grande parte destes emigrantes tinha parado no tempo»: «as suas mentalidades não evoluíam, uma vez que tão pouco assimilavam as particularidades da cultura do país em que viviam e continuavam a defender valores obsoletos», muitos deles, entretanto, «já em desuso na sua própria terra» (p.146) de origem (a ilha). O analfabetismo, a pobreza, certos valores e costumes faziam estes emigrantes «acanhados» (idem).

Para a personagem protagonista e a sua família, decorrente das vicissitudes da vida, o «percorrer de estradas [do novo país] abriu-lhes horizontes e fê-los conhecer melhor a realidade da terra de adopção. «Nunca sentimos falta de liberdade, pelo contrário, a capacidade de sonhar e as frequentes mudanças faziam de nós pessoas bastante mais livres do que a maioria» (p.149). As viagens e as experiências têm impacto transformador e pedagógico para lidar com o desconhecido e a incerteza. Caminhar no mundo é também caminhar «dentro de si», como escreveu José Tolentino Mendonça (crónica "Viajar": Revista E, de 9.8.2014). Deslocar-se no território implica sempre uma «mudança de posição» e «ângulo» de visão («novo olhar»), bem como estimula capacidades de adaptação a lugares e culturas diversas.

O poema "Ítaca" do poeta grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933), citado por José Tolentino Mendonça na referida crónica, diz tudo sobre o lado positivo e a riqueza do percorrer o mundo, mesmo que as razões da partida, no caso da emigração em nome da sobrevivência, não sejam as mais felizes: ... «[...] Não te apresses nunca na viagem./ É melhor que ela dure muitos anos,/ que sejas velho já ao ancorar na ilha,/ rico do que foi teu pelo caminho,/ e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.// Ítaca deu-te essa viagem esplêndida./ Sem Ítaca, não terias partido./ Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.»

A família deixou a ilha e viajou, para e pela «nova terra», durante muitos anos, que permitiu colher a experiência de vida «pelo caminho», interagindo (contaminando-se) com as suas gentes e cultura: os «frutos» daquele país «tinham um paladar delicioso e novo. Como tudo o resto» (p.29). E todo o caminhar se constituiu numa riqueza pessoal acumulada.

Isto embora sempre "presos" à tradição e costumes da aldeia longínqua, no espaço e no tempo, em especial através da figura materna: «extrema religiosidade da minha mãe» (p.124). Contudo, a religião católica lhe servia de referencial de valores e «apoio enquanto criava os filhos sozinha», permitindo-lhe «manter o controlo» e dando-lhe «segurança» (p.125).

A jovem narradora-personagem foi-se rebelando perante essa tradição, confrontada com novas realidades e valores como o «movimento Hippie», a «mini-saia», as «músicas da moda» (p.150). Ela desejava uma «forma de vida mais liberal e alegre» e não apenas uma vida «regida pelos mandamentos da Lei de Deus e da Santa Madre Igreja»: «e tudo era pecado...» (idem), isto é, castrador. Daí «desafiar a minha mãe e desobedecer propositadamente», o «meu desporto favorito» (p.151).

Os dois últimos capítulos, «A mulher carteiro» e os «Tempos de chá sem açúcar – km4», embora fluam, serão demasiado longos, o que contrasta com a dimensão dos restantes capítulos. Poderiam, pois, ser subdivididos. O penúltimo capítulo, dedicado à mulher que distribuía o correio, poderia ser preenchido apenas pelo conteúdo respeitante à personagem, que ajuda a descrever a cultura e a ambiência da aldeia. O restante conteúdo formaria um outro capítulo autónomo. O capítulo «A minha avó», o antepenúltimo, parece surgir como informação solta e com perda da fluência narrativa. Esta figura familiar talvez beneficiasse mais se a sua referência estivesse num momento anterior ou derramado por vários capítulos anteriores, quando fosse oportuno e pertinente falar sobre ela. São questões de pormenor.

As figuras femininas assumem relevo nestas memórias através de mulheres fortes, densas e de uma identidade e singularidade vincadas. Além da figura materna, temos capítulos intitulados «as mulheres da aldeia», «Fortunata», um dos capítulos mais impressivos, «a minha avó» e «a mulher carteiro». Todas são originárias da aldeia na ilha. Todavia, as figuras masculinas não ficam atrás. Interessantes e relevantes de um outro modo, são leves, abertas, luminosas, progressistas e surgem no contexto da «nova terra»: «Mr. Atlas», o pai (já estava no novo país), «o meu primeiro amor», Joseíto, o «pintor» Armando Reverón e o finlandês Christos Paabola, a «mais pura manifestação de alegria e generosidade» (p.113). Todos estes homens também chamados a título dos respectivos capítulos. Eles no novo mundo, no continente americano, elas no velho mundo, numa ilha periférica da Europa.

Os tempos de chá sem açúcar dão conta de mais um momento central no percurso da família: o regresso à grande cidade, mais próximo ao litoral: «estávamos de volta ao ponto de partida» (p.141). Este capítulo final contempla tanto a continuidade do enredo como a contextualização através de pausas descritivas e balanço sobre o percurso da família.

Os outros três momentos centrais foram, recorde-se, a chegada à «nova terra» (p.15), o encerramento do hotel do pai («foi o começo de uma série de mudanças» - p.63), numa altura de má economia no país (na sequência do golpe de Estado já referido), a perda do «negócio», o Bar Copacabana (p.77), que, por sua vez, despoletou a mudança para o interior do país, uma «viagem no escuro» (p.85), para a «porta de entrada da Amazónia venezuelana» (p.86), a mil quilómetros de distância.

Este relato de memórias deixa em aberto uma sequela, cobrindo a fase mais pulsante e vibrante da vida do narrador-personagem, ou de qualquer pessoa, que é a juventude e a entrada na idade adulta. Essa abertura para mais relatos fica expressa no final do último capítulo («foi o tempo dos rapazes, mas essas são outras histórias...» - p.158) e no epílogo, que é uma janela (pode ser de «avião») para mais memórias, a serem resgatadas, para o «mundo» («do lado de fora») e a «liberdade».

O soltar do cabelo (retirados os ganchos que o aprisionavam) e o pintar dos lábios são uma metáfora de libertação e de expansão e afirmação pessoais: «agora sou Eu» (p.160). Note-se a maiúscula no pronome pessoal. É mais uma mudança, uma nova viagem iniciática. A «fronteira exterior» reenvia para uma «fronteira interna» (Mendonça, J.T., idem). É a aventura do (re)«nascimento» que não cessa vida fora.

A personagem protagonista «gostava muito de ler» (p.106). E quem lê muito, e tem algo para dizer, acaba por escrever. Neste caso, materializado nesta História em pedacinhos, que é uma realização que muito deve orgulhar a autora. Pela coragem em partilhar e resgatar memórias de vida vivida, pela qualidade de escrita, rebeldia, capacidade de observação, inteligência e sensibilidade. E por colocar alma.

Recorde-se que a sua mãe desejara «escrever um livro» (p.65), o que veio a ser feito por Maria Cecília. Mais não fosse, a transmissão desse desejo e gosto pela escrita bastaria, por si só, para assegurar valor e influência deveras significativas à figura materna.

Aguardemos a História em pedacinhos II, com o subtítulo respectivo. Acima de tudo, que a escrita continue a ser um contraponto luminoso na vida da autora. Que a escrita possa também ser uma «casa», o seu «lugar» (p.71) finalmente encontrado, onde Maria Cecília habite e more.

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Agradeço ao amigo Wilson Silva, ávido leitor, pelas importantes ideias trocadas sobre a História em pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar, bem como pela atenta detecção de gralhas, que é prova de especial talento para ser editor e/ou revisor.

terça-feira, outubro 25, 2016

Cantar os seus males para os espantar

Bob Dylan
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«What made the real blues singers so great is that they were able to state all the problems they had; but at the same time, they were standing outside them and could look at them. And in that way, they had them beat. What's depressing today is that many young singers are trying to get inside the blues, forgetting that those older singers used them to get outside their troubles

Bod Dylan citado por Nat Hentoff, num texto incluído no booklet do álbum The Freewheelin' em CD, reedição de 2003, sobre o tema Down The Highway (Well, I'm walkin' down the highway / With my suitcase in my hand / Yes, I'm walkin' down the highway / With my suitcase in my hand / Lord, I really miss my baby / She's in some far-off land). Bob Dylan menciona que o que pensa sobre os blues aprendeu-o com Big Joe Williams.

É isto que também fazem os real fadistas: derrotar ou espantar os males ao cantá-los. Cantá-los permite o distanciamento.

segunda-feira, outubro 17, 2016

True love


«a man hasn’t found true love until he finds the woman who will hang on to his arm the way Suze Rotolo hangs on to Dylan on the front cover of Freewheelin’» (The Guardian, October 16, 2016)

This is a sentence from an extract from Do You Mr Jones: Bob Dylan with Poets and Professors, edited by Neil Corcoran (Chatto and Windus)

quinta-feira, outubro 13, 2016

No way is the way of freedom

David Bosc
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“No way is the way of freedom. People, when they are free, go through all paths” -  David Bosc, escritor francês, sobre Gustave Courbet, em La Claire Fontaine, um retrato do pintor.

terça-feira, setembro 27, 2016

Histórias que mudam vidas

Arturo Pérez-Reverte
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«O que eu quero é que me contem histórias interessantes, que me façam reflectir, pensar, sonhar, que mudem a minha vida. Se, quando terminar a leitura de um livro, a minha vida não tiver mudado para melhor, ou é um mau livro, ou eu sou um mau leitor. Um livro que não muda o olhar do leitor é uma merda de livro. E o mundo está cheio de merdas de livros que não mudam nada. São apenas fruto da vaidade onanista de autores que não têm nada para dizer.» «Mas quando um filho da puta que não fez mais nada do que beber copos num bar se atreve a escrever 500 páginas sobre a sua interessante personalidade, vá apanhar no cu!» (Público 16.9.2016: "Escrevo romances em legítima defesa")

Livro que vale mesmo a pena muda-nos a vida. Esta entrevista a Arturo Pérez-Reverte, que fala sem rodeios nem tretas politicamente correctas, pode também ter mudado algo na minha vida...

quarta-feira, setembro 14, 2016

Quando a conversa desvia da acção

Acções falam mais alto do que as palavras

Somos um país de muito falar (palestras, reuniões, conferências, encontros, seminários, relatórios, comissões, debates, repetidos diagnósticos, etc.) e pouco fazer e solucionar.

Para além da cultura de pântano e bloqueio sistemático, o «falatório» (e há quem se delicie a ouvir-se a si próprio nos diferentes palcos) pode mesmo inibir e desviar as pessoas do fazer e da acção.

«Companies often confuse talking with doing. They think that talking about doing something is the same thing as doing it! That planning is the same as doing. That giving presentations is the same as doing. That making reports is the same as doing. Or even that making a decision to do something is the same as doing it. All of those errors occur with alarming regularity in companies today. Mistaking talk for action is worse than just a simple error: Talk can actually drive out action.» (fonte)

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